terça-feira, 13 de maio de 2014

“ALEGRIA DA CIDADE”



"A minha pele de ébano é, a minha alma nua

Espalhando a luz do sol, espelhando a luz da lua

Tem a plumagem da noite e a liberdade da rua

Minha pele é linguagem e a leitura é todo sua

Será que você não viu, não entendeu o meu toque

No coração da América, eu sou o jazz, sou o rock

Eu sou parte de você, mesmo que você me negue

Na beleza do afoxé, ou no balanço do reggae

Eu sou o sol da Jamaica, sou a cor da Bahia

Eu sou você, sou você e você não sabia

Liberdade, Curuzu, Harlem, Palmares, Soweto

Nosso céu é todo blue e o mundo é um grande gueto

Apesar de tanto não, tanta dor que nos invade

Somo nós, a alegria da cidade

Apesar de tanto não, tanta marginalidade

Somos nós, a alegria da cidade"

Em 13 de maio de 1888, quando foi proclamada, oficialmente, a abolição da escravatura no Brasil, havia ainda, sob o jugo da escravidão, aproximadamente 800 mil pessoas. Embora tenhamos fortes questionamentos sobre o alcance e profundidade da referida medida, temos que reconhecer a importância deste marco histórico que retirou o Brasil da vergonhosa condição de escravocrata mor do mundo moderno, além de libertar, formalmente, milhares de pessoas. Diria mais, mesmo que fosse uma única pessoa que tal ato tivesse libertado, ainda assim teria sido importante, pois a liberdade do ser humano não pode ser medida em números.

Neste episódio macabro da história mundial o Brasil tem posição de destaque: foram mais de 5 milhões de africanos escravizados, correspondendo a 46% de todo tráfico negreiro no mundo. Dentre os quatro portos mais importantes do criminoso comércio escravista mundial o Brasil possuía três – Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco.

Nos quase quatrocentos anos de escravidão (384 anos, para ser rigoroso), milhões de homens e mulheres foram torturados, mutilados, humilhados, vilipendiados e expropriados do bem mais importante que um ser humano pode ter – a liberdade. E neste tema, lamentavelmente, o Brasil entrou para a história da humanidade pela porta dos fundos, tendo sido o último país do mundo a abolir o crime de "lesa humanidade" que foi a escravidão. Diante de um passado tão trágico, o legado não poderia ser outro, senão a permanência entranhada em nossa sociedade do preconceito, da discriminação e do racismo.

Claro que muitos esforços, medidas e políticas públicas tem sido propostas e implementadas para a superação deste câncer que ainda se faz presente em nossa sociedade. Claro que muitas conquistas e vitórias tem sido alcançadas, como a inclusão do negro no ensino superior e o reconhecimento dos territórios remanescente de quilombos. E claro, que para tanto, temos contado com inúmeros aliados das mais variadas matizes ideológicas ou étnicas, embora na maioria das vezes, esta luta seja travada de forma solitária e dolorosa pelos homens e mulheres negras que ainda enfrentam o racismo no seu dia a dia. E mais claro ainda, que muito há por fazer para que esta chaga seja definitivamente eliminada de nossa sociedade.

Mas, apesar de toda esta tragédia, a presença negra na formação da sociedade brasileira tem sido positiva e civilizatória. Em que pese a exclusão, o racismo e a discriminação, temos contribuído decisivamente para que o Brasil se insira entre as nações do mundo em que a cor da pele, a origem social, a opção sexual ou religiosa não sejam critérios para o exercício da cidadania plena. E nada melhor, que a poesia como meio e mensagem de esperança para dias melhores. Valeu Lazzo e Jorge Portugal, dois artistas baianos, autores deste belo poema-canção, chamado "Alegria da Cidade".


Axe !

"Toca a zabumba que a terra é nossa !


Fonte: Terra

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