quinta-feira, 21 de abril de 2011

ZUMBI E TIRADENTES

Temos dois heróis no Brasil: Zumbi dos Palmares e Tiradentes. Ambos representam os mesmos valores, os mesmos desejos, o mesmo sacrifício fundamental. São heróis não porque tenham vencido batalhas - ambos foram derrotados e punidos com a morte. Ambos saem do mais profundo do povo brasileiro, até mesmo na vulgaridade absoluta de seus nomes. Ambos têm uma biografia sem importância no cômputo geral da História.

Mais do que seres de carne e osso são símbolos de uma nacionalidade que se está formando e por cujos valores tiveram sacrificada a vida.

O que há de positivo nestes valores é que deve interessar-nos: o desejo absoluto de liberdade ao preço da própria vida - esta é a lição de Zumbi e do Tiradentes. Não são os detalhes do que ambos foram quando estavam vivos que dão sinal de sua importância. Como todos nós, devem ter tido suas "fraquezas": seus problemas amorosos e familiares, seus pequenos deslizes econômicos, as dívidas que deixaram de ser pagas, a palavra excessiva dita num momento de cólera - tudo é parte de sua humanidade.

O que os cinge de uma luz diferente e mais clara é o que representam para um povo que se está criando ainda, e que é também o melhor pedaço do que todos somos: o nosso desejo de afirmação, a nossa esperança de que num futuro que nos espera aí adiante vamos ser todos iguais e livres. Comemorar Zumbi dos Palmares (e Tiradentes) num país em que cada dia estes ideais parecem mais distantes pode parecer ato de gratuita futilidade ou frivolidade. Creio que não. O que é preciso é dar-lhes o valor real de seu símbolo, sem distorções que procurem apenas encobrir a realidade de seu sacrifício.

Como fazer isto? Talvez apenas pela lembrança de que o início de consciencialização que representam é um processo em continuidade. A liberdade política com que Tiradentes sonhava, amordaçada então pelo "quinto" que os colonos pagavam à Metrópole, ainda se encontra presa aos juros da dívida externa; a igualitária República de Palmares de Zumbi ainda é apenas sonho para os que vivem nas senzalas dos morros de favelas e dos cortiços da miséria de hoje.
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Pequena antologia de poetas afro-brasileiros em homenagem

ao Zumbi de Palmares, no tricentenário de sua morte.
Organizada por Heitor Martins.


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