segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Alô, gente diferenciada, a luta é pela classe! por Guilherme Balza


é a absoluta falta de capacidade do movimento estudantil em construir suas pautas vinculadas às lutas além-muros. E esse problema não é de hoje.

Até agora, todas as notas de entidades, declarações de militantes e até artigos de professores progressistas vão na linha de que a PM no campus é uma ameaça à autonomia universitária. Esse é o principal argumento – e, em muitos casos, o único – repetido à exaustão. Sabemos que, mesmo no Estado republicano burguês, uma das principais funções da universidade pública é ser o núcleo duro de crítica à sociedade. Portanto, a academia deve gozar de autonomia em relação a governos e ao Estado.

Agora, ainda que o princípio da autonomia esteja contido no espírito republicano, é ingênuo demais achar que em tempos em que tudo virou mercadoria os gritos por autonomia vão ecoar no governo, mídia e numa sociedade cujo um dos maiores temores é o da falta de segurança – sociedade, aliás, que não tem noção do que é uma universidade pública, quanto mais o que significa autonomia acadêmica.

Como se basear no mito da autonomia universitária para defender a saída da Polícia Militar no campus, se justamente um dos argumentos pró-PM utilizados pela reitoria é garantir a segurança e o bem-estar dos estudantes para que estes possam se dedicar com mais tranquilidade à vida acadêmica? De fato, polícia não combina com universidade, mas, infelizmente, na atual conjuntura, o argumento da segurança dos estudantes cola muito mais.

FAÇAMOS O IMPOSSÍVEL. Não nos comportemos como iluministas. Esqueçamos o passado de “ouro” da universidade. A luta contra a PM no campus o movimento estudantil não deve mais buscar abrigo no mito da autonomia. Vamos direto ao assunto e deixar claro para a sociedade que a luta contra a PM no campus é uma luta direita contra a existência de uma Polícia Militar no Brasil, um dos poucos países do mundo que ainda mantém uma corporação militar para agir na cidade e no campo contra civis.

Muito mais do que pela autonomia universitária, a luta contra a PM no campus, desde já, deve ser simbólica e solidária a todos e todas que foram mortos e são oprimidos pela polícia todos os dias, na periferia, nas favelas, no campo. É um grito de basta a uma corporação vestigial e ideológica, formatada nos tempos de ditadura militar, a serviço da burguesia e do Estado, cuja função principal, acima de tudo, é reprimir toda e qualquer manifestação que questione a ordem vigente.

Uma corporação que elege negros, pobres e militantes de movimentos sociais como seus alvos prediletos; que, apesar de pública, é fechada, sem transparência, rigidamente hierarquizada, sobre a qual a população não tem qualquer controle; que tem como modos-operandi a chantagem, o suborno, a ameaça, a vingança; que constantemente se envolve em escândalos de corrupção, em episódios de tortura e abuso de poder que vitimizam de motoboys a juízas; que no passado fomentou grupos de extermínio e hojecerra as fileiras de milícias criminosas; que protagonizou alguns dos episódios mais tristes da história recente do país, como os massacres do Carandiru, Carajás, Corumbiara, Vigário Geral, Candelária, Acari e Queimados; que, a título de honra e vingança, executou mais de 400 moradores da periferia de São Paulo após os ataques do PCC emmaio de 2006. Em resumo, uma corporação falida, que definitivamente já mostrou não ser capaz de servir e proteger a população.

Não devemos nos valer do fato estar em um território diferenciado, que é a USP, para reforçar privilégios. Nosso objetivo principal na luta contra a PM no campus deve ser, sobretudo, pedagógico: mostrar à sociedade que é preciso começar a dizer “não” à PM; usar do destaque que temos na mídia e perante ao poder público para desmascarar, desnaturalizar e desmoralizar a corporação.

Se hoje só é possível dizer “Fora PM” – e até pular em cima de viaturas – em alguns espaços privilegiados, dentre os quais a USP, nossa luta deve ser para que todos, por meio da organização popular, possam fazer isso num futuro próximo. Ou seja, nossa tarefa, enquanto “núcleo duro” da crítica à sociedade, é dar impulso a um grande debate – até agora ignorado – sobre o porquê de nós termos (que aturar) uma Polícia Militar no Brasil, diferentemente da maioria dos países do mundo. Mas, para isso, é preciso desde já fugir da armadilha da autonomia universitária e dessa prática isolacionista que impede o movimento estudantil de ter um olhar sobre o todo.

Essa opção não significa ignorar os problemas específicos da USP. Pelo contrário. Junto com o debate para além dos muros, devemos mostrar que a PM no campus não é a melhor maneira de resolver o problema de segurança – inclusive porque eles estavam na USP no dia em que o estudante da FEA foi morto. Devemos mostrar que a USP (supostamente) tornou-se insegura porque fechou suas portas à sociedade, virou um espaço deserto, mal-iluminado. Junto com isso, temos que elaborar e propor uma nova alternativa de segurança no campus.

A única maneira de derrotarmos a política do reitor Grandino Rodas é ampliando o apoio dentro e fora da universidade à nossa causa. E só vamos tê-lo quando mudarmos a prática, o discurso e o modo como construímos as pautas do movimento estudantil, de modo que os outros não nos vejam mais como rebeldes sem causa travando uma batalha reacionária em busca de mais privilégios.

Nossa luta não é uma carteirada. Nossa luta é para enfraquecer um dos principais inimigos da transformação social, da revolução brasileira.
 
*Guilherme Balza é estudante de Jornalismo da USP

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