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| Jorge Portugal |
Agora mesmo, estamos diante de um capítulo, no mínimo ridículo, dessa mesma novela. Com a explosão de um grande – e novo – contingente de consumidores, denominado por sociólogos de "Classe C", as empresas de TV aberta vivem uma excitação só, para conquistar e consolidar essa nova audiência. Aí, os "gênios" da criação e do marketing ficam imaginando – e pior: decidindo o que a tal "Classe C" quer ver na telinha, em sua casa.
Nessa hora, saltam todos os preconceitos e estereótipos: – "pessoas dessa origem só gostam de curtir pagode, sertanejo, ver tramas açucaradas nas novelas, lutas de MMA (Vale Tudo)" e outros itens desse elenco imbecilizante. No intervalo comercial, é o varejão com um âncora aos gritos oferecendo "aquele conjuntinho" de sala ou a LCD, objeto do desejo de todos.
Caminho do raciocínio: como a tal Classe C é formada por gente que ganha de dois a cinco salários mínimos, o grosso do seu contingente é de negros, pardos (mestiços) com, no máximo, ensino médio feito na rede pública, nas condições que conhecemos. Logo, tome-lhe porcaria! Eles ainda não teriam status cultural para consumir coisas mais sofisticadas, pensam os "gênios" da produção e programação.
Traduzindo: é o mesmo raciocínio – e ação – que determinavam a relação entre a Casa Grande e a Senzala dos idos coloniais, imperiais e que se reproduziria no século seguinte, dito republicano. O velho nó da exclusão à brasileira que ninguém se propõe a desatar. Até porque esse nó só se desata com muita educação, muita informação de qualidade, desenvolvimento humano de primeira, conteúdos que façam pensar.
E tudo isso é justamente o que não está na pauta das preocupações da TV aberta do país. Mesmo sendo uma concessão pública – o que a obrigaria a ter certas responsabilidades sociais – esse importante meio de comunicação limita sua visão dos indivíduos apenas à condição de consumidores. Nunca de cidadãos.
Fonte : Blog de Jorge - Terra Magazine

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