Cine Belas Artes: retomada de um patrimônio afetivo
POR JUCA FERREIRA*
A retomada do Cine Belas Artes realiza o desejo de milhares de paulistanos ao devolver um dos equipamentos culturais mais queridos da cidade. E traz a tona a discussão sobre o modelo de cidade que queremos para São Paulo. Na esquina da Avenida Paulista com Avenida Consolação, o convênio entre CAIXA, Prefeitura e programador trará de volta uma programação de qualidade e diversidade, maior acesso ao cinema, e a retomada de uma esquina que é ponto de encontro e circulação de pessoas de todas as regiões da cidade.
O que nos moveu na negociação de mais de 10 meses que viabilizou a retomada do cinema é, antes de tudo, a necessidade de criarmos uma cidade mais humana. Uma cidade capaz não apenas de ser um grande motor de produção e consumo, mas que pode e deve firmar-se como grande centro cultural do Brasil e do mundo. Uma cidade capaz de valorizar seu patrimônio cultural, seus espaços de formação, reflexão e fruição.
Hoje muitos teatros, cinemas e livrarias, especialmente os de rua, vivem sob a pressão da vertigem imobiliária da cidade. Espaços que fecham suas portas após valorizar o entorno com cultura e arte. Este é um processo de degradação que pode ser revertido em benefício da cidade. E é isso o que a cidade espera.
A festa e enorme comoção social e cultural nestes últimos dias com a notícia da retomada do cinema, a mobilização do Movimento Belas Artes e de abaixo assinados pela internet revela uma demanda cada dia maior pela reversão dessa tendência de degradação. Dos rolezinhos às manifestações, a mensagem que emerge da São Paulo de nossos dias é a demanda por mais acesso cultural, convivência e lazer para todos. Sem preconceito de qualquer ordem.
Trata-se de afirmar a primazia cultural e coletiva da cidade sobre a especulação, a afirmação de um projeto de cidade sobre a degradação urbana. A superação do modelo de crescimento a qualquer custo, com degradação social, ambiental e cultural. A retomada do Belas Artes é, nesse sentido, parte de uma política cultural e urbana que dialoga com estas novas e antigas demandas da cidade.
A ação coordenada pelo prefeito Fernando Haddad – por meio das Secretarias de Cultura e Trabalho – encontrou a disposição da CAIXA em associar-se ao Belas Artes. Uma ação sem custos adicionais aos cofres públicos, tipo de parceria inteligente e não onerosa para o contribuinte e cidadão.
A vitória do Belas Artes é mais do que a retomada de um cinema que conquistou a afeição da cidade. Trata-se de pautar os espaços de circulação, fruição e convivência como centrais para o desenvolvimento da cidade.
* Juca Ferreira é secretário de Cultura da cidade de São Paulo
Fonte: Portal Terra

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