Historicamente, os problemas de interesse da população negra não são temas recorrentes no jornalismo brasileiro. O não reconhecimento das demandas específicas desta população, o uso freqüente de estereótipos, a ausência de imagens positivas e a pouca produção de notícias com foco na temática racial são alguns dos desafios que a imprensa brasileira precisa enfrentar.
As recentes transformações na sociedade – sobretudo, por conta da atuação reivindicatória dos movimentos sociais negros por políticas públicas para a promoção da igualdade de oportunidades e da equidade no acesso a direitos humanos –, tem estimulado mudanças em setores da mídia.
Temas como saúde da população negra, ações afirmativas, juventude negra, intolerância religiosa, entre outros, são objetos de pautas nas redações. A expectativa é que cada vez mais jornalistas tratem desses assuntos de forma qualificada.
Contudo, o racismo e o etnocentrismo ainda persistem como fatores responsáveis pela invisibilização de temas específicos sobre a população negra nos veículos de comunicação. Há setores que ainda fazem coberturas jornalísticas pouco consistentes sobre a temática negra, desfocadas da realidade e de forma sazonal.
Especialistas avaliam que a ausência de jornalistas negros/as nas redações acentua o problema. E reflete as desigualdades socioeconômicas no Brasil. O Censo 2000 do IBGE revelou que o jornalismo é uma das profissões com a menor proporção de negros no país: 15,4% contra 82,8% de brancos.
A reduzida presença de jornalistas negros/as nas redações indica uma estrutura ocupacional pouco plural e favorece a invisibilização das demandas da população negra bem como a visão estereotipada desses grupos.
Diversidade
Além da baixa representatividade no mercado de trabalho, os jornalistas negros também enfrentam o racismo nas redações.
Na década de 1990, o repórter Tim Lopes, ainda no Jornal do Brasil, afirmou “não existir um só repórter negro, mulato, moreno-claro ou cafuso que, por trás da máscara da simpatia, não tivesse sofrido brincadeira discriminatória pelos colegas brancos”.
Diante desse quadro, o debate sobre a questão racial ganhou força entre jornalistas sindicalizados.
A partir dos anos 2000, as Comissões de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojiras) e o Núcleo de Jornalistas Afrobrasileiros do Rio Grande do Sul se organizaram em seus respectivos sindicatos. Hoje esses grupos atuam em cinco estados (SP, RS, PB, BA, AL), um município (RJ) e mais o Distrito Federal (DF).
O movimento das Cojiras e do Núcleo culminou com a criação da Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Étnico-Racial (Conajira), formalizada em 2010 durante o 34º Congresso Nacional de Jornalistas, em Porto Alegre.
Em mais de uma década, as Cojiras vem contribuindo para promover o debate sobre a inclusão da diversidade racial na pauta jornalística em seus estados e nacionalmente. Chamam atenção para ausência de fontes qualificadas nas reportagens e destacam a necessidade de levantamentos censitários com recortes de gênero e de raça nas redações, além de mais cursos e pesquisas sobre o tema.
Porém, para se alcançar um jornalismo plural em todas as suas práticas, ainda há muito a ser feito. O Prêmio Nacional Jornalista Abdias Nascimento é mais uma iniciativa neste sentido.
Fonte: premioabdiasnascimento.org.br
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