Escrevo para mais uma vez externar e provocar a reflexão que não quer calar.
Alguns assistiram e outros participaram ativamente fosse com eleitor, fosse como candidato de mais uma eleição para as escolhas majoritárias e proporcionais no Brasil.
Quero focar em minha terra a Bahia, cuja concentração de negros e negras, já ultrapassa 50% da população.
Todos nós sabíamos que enfrentaríamos uma disputa que não seria fácil em razão dos vários fatores que norteiam a cultura eleitoral em nosso país.
Os sucessivos debates, acompanhados das mais graves denuncias que temos acessado nos diversos veículos de comunicação; dão o tom de como se faz política no Brasil. Mas, essa não é a tônica que deve prevalecer porque acreditamos que é possível se fazer uma política séria, com bons propósitos e com credibilidade e isso não é utopia.
Contudo, existem fatores que deveriam obedecer a um critério matemático e até mesmo lógico quando se tratassem de resultado.
Lembro que uma das iniciativas mais louváveis e conscientes que participei durante o processo eleitoral foi o diálogo promovido pelo Conselho Estadual Desenvolvimento da Comunidade Negra, mediado pela ativista Wilma Reis, propondo temas importantes para o avanço social e político da nossa comunidade.
E naquela sede de debates se fizeram presentes praticamente quase todos os candidatos negros comprometidos com as nossas lutas e lembro ainda que a militância também estava de forma exuberante, numa rara demonstração de que a despeito das divergências existentes quanto ao viés ideológico, religioso, orientação sexual, sobretudo, partidário, uma coisa talvez maior naquela discussão, nos unia, que era a nossa afirmação enquanto negros numa sociedade racista, machista, sexista dentre outras posturas discriminatória, a exigir daqueles que viessem a assumir o poder, enquanto legítimos representantes; a eleição de matérias que destacassem e garantissem a nossa visibilidade, a efetiva inclusão, a partir de um tratamento equânime entre as pessoas respeitando ás diferenças e o irrenunciável Direito ás nossas liberdades individuais e coletivas, consagradas constitucionalmente.
Porém, após oito dias do sufrágio, observamos que a força da militância comprometida com a questão negra demonstrada naquele debate, não se refletiu nas urnas para garantir a voz do segmento nos parlamentos estadual e federal.
A militância até esteve nas ruas, mas a prioridade abraçada, certamente não foi a que norteou aquele rico diálogo.
Identificamos haver um distanciamento profundo entre os lideres do movimento negro e os seus liderados; capaz de refletir a não legitimidade na representação.
É preciso se ter em mente que existe um fosso evidente entre a defesa programática dos princípios da gênese dos partidos defendidos a ferro e a fogo, nada contra, exercitado por militantes negros e a extrema correria desses mesmos partidos para inserir como se fora uma apêndice em seus programas a questão racial negra, porém sem qualquer compromisso efetivo materialmente falando, para justificar e utilizar o voto negro para eleger os não negros.
Isso é fato observem quantos negros concorrem em condições reais de se elegerem nos partidos? quem concentra os recursos partidários? Esses recursos são revertidos de forma igualitária para as candidaturas negras e femininas?
Para que não se diga que é mero desabafo vale refletir quantos negros assumiram nessa legislatura ás duas casas?
Porque mesmo sendo Secretário de Estado Elias Sampaio não se elegeu e os secretários de agricultura e da saúde foram eleitos?
Quem formulará e fiscalizará a efetividade das liberdades individuais e coletivas?
Porque não foram eleitos: Hamilton, Olívia, Luiz Alberto Silvia, Elias, Bira, Gilmar, Luislinda, Wilton, Creuza, Suica, e tantos outros negros na Bahia negra comprometidos com as nossas lutas?
Por fim, é preciso constatar quem são os nossos líderes e que estes de fato apresentem os seus liderados, para que possamos conscientizá-los social e politicamente a fim de que escolham os seus legítimos representantes entendendo que o atendimento as necessidades deverão ser coletivas, em prol do bem comum, considerando as nossas especificidades e não ter o seu voto trocado por tijolos, pagamento de faturas de cartão de crédito, sacos de cimento e assemelhados, ficando fadados a passarem o resto das suas vidas sem acesso a políticas públicas, desfrutando de uma vida indigna, porque destituída de respeito a sua cidadania.
Líderes, militância estamos nos aproximando do dia da Consciência Negra e do Carnaval onde talvez tenhamos as maiores concentrações de negros do mundo, cantando, dançando e também formando um cordão humano, apanhando da polícia para assegurar o conforto de outros seres humanos iguais.
É preciso conscientizá-los que essa força deverá ser manifestada nas urnas, acredito que este seja um bom tema para refletir e agir, evitando a composição musical de belos e sonoros lamentos!
Silvia Cerqueira
Advogada
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