No Brasil, há meio século é permitido, em nome da produção agropecuária, deitar e rolar sobre a preservação ambiental
'Vejam o absurdo, preservamos mais do que os índios e as áreas de reservas ambientais legais', diria um membro da bancada ruralista
Sempre que a consciência nacional é alertada para a preservação ambiental, sobretudo no que se refere ao trato das águas, bom uso do solo, respeito aos biomas, valorização da biodiversidade, e a necessidade de frear o uso de princípios tóxicos prejudiciais à saúde, um imediatismo imbecil e interesseiro toma de estatísticas distorcidas, velhas e carcomidas, sem qualquer fundamento científico ou da pesquisa, para esfregar em nossas caras que, sem esse bacanal químico, nada teríamos para comer. São vítimas e nos fariam vítimas.
O mesmo poderá acontecer com o mais do que retardado Censo Agropecuário, anunciado pelo desgoverno ter começado. Sim, começou, mas em bases diferentes dos censos anteriores, o que dificilmente permitirá comparações válidas e conclusivas.
Foi simplificado para reduzir custos e apressar os resultados. As imperfeições, como sempre, foram jogadas nos ombros da “falta de recursos”, em Federação de Corporações, paraíso de quem vive de rentismo e sonegar impostos, auferindo renda transferida dos estratos mais pobres da população.
Será um instrumento quantificador de dados óbvios, genéricos, área, produção e produtividade por cultura, que outros programas já informam, até se pesquisados em órgãos no exterior (USDA, FAO, OCDE, por exemplo).
Sobre o “estado de arte” de nossa preservação escamoteiam até a Embrapa Monitoramento por Satélite com dados que dizem “a agricultura usar somente 9% do território nacional e a pecuária 13%”.
Que fosse isso, ainda não seria bom. Mas não é. O porcentual é calculado sobre total que inclui o extenso território amazônico, litorais, regiões urbanizadas, terras desertificadas ou desprovidas de infraestrutura logística, impossíveis ao plantio produtivo.
Vamos e venhamos, tomassem agricultura e pecuária o dobro desse espaço para cultivo de commodities gerariam um excesso de oferta que, de imediato, faria caírem os preços e quebrar a agropecuária. Lembrem-se: o Tesouro Nacional não está com essa bola para suportá-los.
Até que chegamos aos humanos que serão esquecidos pelo Censo. Para se defenderem, apontam 13% do território em posses indígenas, 17% em reservas ambientais, 3,5% com cidades (de algum lugar precisam para abrigar as concessionárias de picapes e SUV) e infraestrutura, principalmente estradas, para escoamento da produção, raras construídas pela iniciativa privada.
No mais, são terras devolutas, assentamentos improdutivos e os inférteis quilombolas, na acepção deles e a de um monstro cujo nome não ouso declinar.
Sentem-se injustiçados ao ter de cumprir um novo Código Florestal que eles mesmo gestaram. O Cadastro Ambiental Rural (CAR), de manter 33% da área como reserva legal, por sua própria conta, sem ajuda de ninguém, o governo, por supuesto.
“Vejam o absurdo, preservamos mais do que os índios e as áreas de reservas ambientais legais”, diria um membro da bancada ruralista, e iria para o céu, o que muito me alegraria.
Um pouco de verdade, em tempos de pós-verdade judicial, é bom.
Há meio século, vem sendo-lhes permitido, em nome da produção agropecuária, deitar e rolar sobre a preservação ambiental.
Foram mestres, com anuência dos sucessivos governos, nas três instâncias, e de multinacionais de agroquímicos, na levada dos “correntões”.
Houvesse no Brasil um Tribunal de Justiça menos corrompido pelo Acordo Secular de Elites, vocês seriam condenados por crime contra a humanidade, como o foram os nazistas, em Nuremberg. Portanto, parem de chorar o leite que derramaram, aceitem as leis e invistam para restaurar o malfeito por vocês e antecessores.
Em 2012, foi aprovada a Lei de Proteção da Vegetação Nativa (nº 12.651), para restauração da vegetação nativa situada em Áreas de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal (RL). Cumpram-na! Ou o escandaloso golpe se presta à esperança de a Lei ser derrubada?
Segundo o professor do Instituto de Geociências da UFMG, Britaldo Soares Filho, como citado pelo biólogo e técnico da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, André Zecchin, no Valor Econômico da terça-feira 3, o Brasil “tem cerca de 21 milhões de hectares com déficit de vegetação nativa em APP e RL de propriedades rurais”.
Acham pouco? Mãos à obra, pois, meninos e meninas. Por que a resistência?
O professor e o André querem apenas ajuda-los, com 3 alternativas:
1. A regularização ambiental por força de lei;
2. A adequação da propriedade conforme aptidão agrícola;
3. A conciliação da restauração ecológica com atividade econômica.
Sei vocês muito competentes para saber qual a alternativa melhor, ou mesmo a forma de combinar as três.
Desonroso, para vocês, é ficar comparando agruras com indígenas, assentamentos e quilombolas.
Via Carta Capital
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