Formado em Propaganda e Publicidade, Ricardo Prado atua como fotógrafo profissional desde 1997. Mineiro, resolveu radicar-se em Salvador no princípio dos anos 90. Seu olhar é arguto. Ás vezes, rigoroso. Contudo, desvela imagens de requintada sensibilidade e beleza. Publicou trabalhos em jornais como The Times, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, A Tarde e nas revistas Kaza, Veja, Casa Cláudia, Elle, Vogue, Giro e Aventura e no livro Bahia Life (Ed. Siquini). Participou de exposições coletivas e individuais.
Lima Trindade – Desde quando você trabalha com fotografia? Em sua opinião, as pessoas nascem fotógrafas ou com o tempo o olho adquire a sensibilidade necessária?
Ricardo Prado – Fotografo profissionalmente desde 97, o que significa que comecei a me interessar por fotografia uns 2 anos antes disso, quando comprei minha primeira câmera – uma Pentax.
Ninguém pega uma câmera fotográfica e sai por aí fazendo fotos maravilhosas, isto é um exercício constante de anos de aprimoramento. É claro que algumas pessoas, por demonstrarem maior interesse pelo assunto, terão maior facilidade de aprender e consequentemente se destacarão mais do que outras, mas para que um fotógrafo possa descobrir seu caminho, são necessários em média uns 10 anos de prática. É o mesmo que surfar, você só aprende na prática e mesmo assim, só com algum tempo de experiência é que se adquire um estilo próprio.
Qualquer um pode fotografar bem, até porque neste campo, não existe o certo e o errado. O que precisa é fazer, refazer e fazer de novo. A fotografia é um exercício diário, um eterno aprendizado.
LT – Quais filtros o bom fotógrafo utiliza para escolher o melhor instante a ser registrado?
RP – No caso da fotografia documental, que é o campo que eu mais me identifico, penso que o melhor filtro é o coração.
LT – Pensando nisso, há um inconformismo do fotógrafo diante da lente, uma recusa à finitude das coisas e da vida?
RP – Eu não vejo na fotografia um meio para “eternizar um instante”, expressão um tanto quanto lugar comum quando se fala nesse assunto. Creio que vale mais o momento em que estou fotografando do que a foto revelada. O que eu quero dizer é que eu gosto muito mais de pescar do que ter o peixe nas mãos, o peixe é apenas uma desculpa pra sair para a pescaria, ele é o documento de que se viveu uma aventura, é o objeto que, numa roda de amigos, fará com que alguém pergunte como foi que você o pescou, gerando um motivo pra se reviver o momento e poder reinventá-lo. Acho que temos aí a origem da conversa de pescador. Essa seria uma forma mais interessante de lidar dar com a finitude das coisas e da vida.
O que me fascina na fotografia não é a foto pronta, o momento perfeito capturado, mas sim o “passe livre” dado pela câmera para que eu possa me aproximar das pessoas. Ela abre portas, permite que eu examine cada ângulo de uma pessoa, que eu entre em sua casa e peça pra ver suas coisas, seus tesouros.
LT – Quais nomes mais lhe influenciaram profissionalmente? Por quê?
RP – Cartier Bresson, Pedro Martinelli, Evandro Teixeira, Terry Richardson, Antoine D’Agata, entre outros. Mas não diria que fui influenciado apenas por fotógrafos, porque sou atraído pelas artes visuais de um modo geral. Então eu teria que citar também pintores impressionistas como Van Gogh, Dali, Picasso, Miró, Tarsila, Portinari, designers como David Carson e entrar no mundo dos quadrinhos e falar de Moebius, Fernando Gonzales, Frank Miller, Will Eisner e mais um monte de gente. Além de cinema. Então eu acho que a gente acaba sendo influenciado por tudo o que vê e gosta, ou até mesmo pelo que não gosta.
Eu sempre fui um consumidor voraz de imagens, isso desde que eu me entendo por gente. Sempre gostei de folhear revistas e de ver livros ilustrados, gosto de ler as figuras, então acho que isso vai meio que norteando minha percepção visual.
LT – É desafiante fotografar a Bahia de Verger e Mário Cravo Neto ou sempre há um novo ângulo a se explorar?
RP – Acho que a Bahia de Verger começou a desaparecer um pouco a partir do momento em que os saveiros perderam suas velas. Hoje em dia a gente sai pra fotografar num dia de festa como o dois de fevereiro ou a Lavagem do Bonfim e a maior dificuldade que se tem é não fotografar nenhum colega ou não ser assaltado.
Acho que o grande desafio é estar num lugar onde muita coisa já foi feita e desenvolver um traço pessoal, mostrar o seu ponto de vista sobre o que está ao seu redor. Cada pessoa tem isso dentro de si, só basta procurar.
LT – Qual o seu equipamento? Conhece fotógrafos que prefiram ainda o analógico?
RP – Eu trabalho com Nikon, minha atual é uma D700. Hoje a grande maioria dos profissionais trabalha com equipamento digital por exigência do mercado e pela praticidade. A câmera de filme fica mais para a realização de trabalhos pessoais, onde não se tem um compromisso tão grande com prazo de entrega.
LT – Depois do avanço da tecnologia digital e dos programas de manipulação de imagens, acredita na sobrevivência da fotografia enquanto arte?
RP – A manipulação digital nada mais é do que o aprimoramento das técnicas de laboratório que se tinha antigamente. Nunca se fotografou tanto como nos dias de hoje, então não podemos dizer que esse pessoal todo que está aí não está produzindo arte. Já dizia Chico Science: “computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro”. A fotografia digital veio para facilitar a vida do fotógrafo. O grande diferencial fica sendo a bagagem de cada um, a capacidade de sair da mediocridade. O que vale é a qualidade do produto final e não a forma como ele foi obtido.
LT – Você já foi convidado para trabalhar com cinema ou publicidade?
RP – Trabalho com publicidade desde que comecei a fotografar e hoje montei um estúdio para atender melhor a esta demanda. Minha formação é de publicitário, pela Universidade Católica, então isso me rendeu contatos nas principais agências da cidade. Nunca fui chamado para fazer fotografia de cinema e também nunca quis engendrar por este caminho, mas não descarto a possibilidade de vir a trabalhar com cinema no futuro. A minha experiência nesta área se restringe a foto de making of, coisa que gosto muito de fazer.
LT – O que pensa da foto enquanto veículo para se discutir questões sociais? Aprecia o trabalho de Sebastião Salgado?
RP – A fotografia, por não necessitar de palavras para ser entendida, é um excelente veículo para discussões sociais, principalmente num país de analfabetos com o nosso. Mas é preciso que se tenha responsabilidade com isso. A dignidade do ser humano nunca deve ser desrespeitada com o intuito de vender uma imagem. E não me agrada a idéia de se ganhar dinheiro transformando a miséria alheia em arte.
Sinceramente não sou muito fã de Sebastião Salgado, se for pra citar algum fotógrafo com trabalho voltado para questões sociais, eu sou mais a linha de Pedro Martinelli. Cito o livro Mulheres da Amazônia.
LT – Que temas lhe agradam mais?
RP – Gosto de fazer foto de gente. Creio que o ser humano é um tema sempre atual e uma fonte inesgotável de inspiração, tanto para a fotografia, como para a arte de um modo geral.
Fonte: http://www.verbo21.com.br

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