terça-feira, 2 de abril de 2013

Triste Bahia por André Ferraro

Fica cada dia mais claro que a Bahia é um bom exemplo de como a historia se repete em farsa. 

A elite rural baiana sempre teve o controle real da política local, salvo em intervalos que serviram apenas para renovar sua forma de perpetuação. 

A Bahia perdeu nos anos 30 uma primeira grande oportunidade para o rompimento e uma efetiva modernização, como aconteceu em outros estados, com a consolidação de uma vida metropolitana e a industrialização.

Isso poderia ter acontecido com a aposta que Getulio Vargas fez ao nomear o Tenente Juracy Magalhães governador-interventor na época com apenas 24 anos, avô do atual deputado Jutahy Magalhães. Mas, assim como acontece hoje, Juracy se aliou a essa elite, que sempre está de prontidão para servir ao poder, desde que preservadas as condições para a manutenção do seu poder político local, dos currais eleitorais e suas praticas. Juracy cedeu para dar estabilidade ao presidente Vargas e eles aderiram.

Assim, Juracy garantiu rapidamente o apoio da maioria da classe política dominante, que sempre viveu, vive e viverá das estreitas relações com o erário publico. Muitos dos que eram contra sairam da Bahia e foram viver em outris lugares do Brasil e do mundo. Juracy era um forasteiro,um cearense, que viu a Bahia uma oportunidade preciosa de se tornar parte da elite economica, e assim foi figura importante na Bahia por quase 30 anos. 

Após esse período, apenas em casos isolados e breves espaços houveram tentativas de modernização da Bahia, como em parte do governo de Antônio Balbino, no governo de Otávio Mangabeira, e de ACM, resultado direto da apropriação por parte deles dos trabalhos de planejamento e urbanismo liderados por Mário Leal Ferreira e Romulo Almeida, e pela Universidade da Bahia do Reitor Edgard Santos. A urbanizacao de Salvador e a instalação da refinaria de Mataripe confirmam esse oasis de desenvolvimento dentro da aridez desertica da politica baiana. Um frescor de vida citadina no ruralismo político, uma leve sombra de capitalismo na estrutura medieval.

Passados mais de 80 anos, desde a revolução de 30, pouca coisa mudou na política baiana. 

Hoje perdemos também uma terceira grande oportunidade, pois a segunda, que foi ilegítima, no governo militar, ACM soube aproveitar, especialmente com a consolidação do do Polo Petroquímico e a breve modernização da máquina publica, apesar de ter cedido amplos espaços e representar como ninguem essa elite no periodo democratico.

Atualmente, com a faca e o queijo para empreender uma mudança real na política e na economia baiana, assim como Juracy, Jaques Wagner se aliou a essa mesma elite, precupado apenas em dar estabilidade ao presidente, e não aproveitou as oportunidades reais que se apresentaram para mudar a Bahia, como acontece em outros estados, ficando apenas de olho no apoio político para sua perpetuação no poder. Depois de quase 8 anos, se contentar com um governo que apresenta como grande realização um estádio de futebol, construído com recursos bancários, e um projeto de uma ponte milionária e desnecessária, sonho das empreiteiras de sempre, convenhamos que é muito pouco para um estado com a dimensão e a realidade social da Bahia.

Como o cearense Juracy, o carioca Jaques fez a opção pela mediocridade. Senão vejamos suas alianças com o que há de pior na política e nos meios empresariais e corporativos. Uma vergonha.

Por isso de J a J, de Juracy a Jaques, a Bahia tem pouco a mostrar de mudanças efetivas e modernização na política e na sua economia. Um arco de aliança que envolve Otto Alencar e César Borges, portanto, faz muito sentido existir como base de apoio, pela tradição e por dados objetivos: a perda de prestigio nas maiores cidades do estado no ano passado apenas aprofundaram a dependência do governo dessa elite rural. Uma elite que sabe como ninguém manobrar a relação entre dinheiro publico, lideranças regionais e compra de votos.

A tragédia maior que vivemos hoje na Bahia é que na época de Juracy ainda tínhamos na mídia figuras como Muniz Sodré e seu Diário da Bahia, e na política homens como Carlos Mariguela, e seu ideário de uma esquerda progressista. Isso ainda representava um contraponto, uma energia de contestação.

Hoje me pergunto: onde está a inteligência baiana? Estão todos nos empregos e boquinhas governamentais? Falta o que? Espaço ou coragem? 

A mídia e a esquerda estão igualmente silenciosas e vendidas, perderam a capacidade critica e mobilizadora, ajudando a afundar a Bahia no neo-conservadorismo obreiro e sindical, sustentado pela propaganda e pela permissividade pragmática com o dinheiro publico. Um verdadeiro beco sem saída. 

Apenas uma seca implacável e a bandidagem incontrolável lembram que há algo fora da ordem. 

Mas nem a morte hoje assusta mais essa gente.

Um comentário:

Sergio Caldieri disse...

Acho que se o Edmundo Moniz, filho do ex-deputado,ex-senador e ex-governador da Bahia Antonio Moniz, ficasse em Salvador, talvez teria sido o herdeiro político da família Moniz. Seu pai Antonio Moniz foi o primeiro professor a falar em Karl Marx numa sala de aula em Salvador. Era sobrinho do Moniz Sodré. Edmundo Moniz veio estudar no Rio de Janeiro nos anos 30 e nunca mais voltou. Os baianos estariam livres dos ACMs da vida.

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