segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Em legítima defesa da esperança

por Valéria Costa E Silva

Acabo de assistir ao discurso de Marina Silva no lançamento do seu programa de governo. Estou tão emocionada, que preciso dividir essa emoção. Quem me conhece, já sabe que se segue mais uma das minhas longas reflexões. Logo, recomendo que só inicie esta leitura, quem não tiver pressa.

Se até aqui eu tinha qualquer dúvida com relação à Marina ser ou não a melhor opção para o Brasil, nesse momento tão difícil em que teremos de lidar com as graves consequências do acúmulo de erros cometidos por um governo ideológico e incompetente, elas desapareceram.

Acabo de ouvir uma estadista falando. Acabo de ouvir uma líder, que nos oferece muito mais que sua impressionante trajetória de superação pessoal. Uma líder que nos oferece sua força, sua coragem e seu coração, para caminhar conosco por um novo caminho, um caminho pautado por princípios e valores, e que é o único que pode efetivamente nos levar a um novo lugar.

Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. No dia 05 de outubro do ano passado, Marina Silva surpreendeu o país inteiro ao anunciar sua filiação ao PSB. Naquela ocasião, Marina surpreendeu ao próprio Eduardo Campos. Mas surpreendeu principalmente a tropa de choque petista, que descobria, atônita, como havia disparado um tremendo tiro no pé. O boicote cretino à legalização da Rede Sustentabilidade produzia um resultado não calculado.

O que pode explicar tamanho erro de cálculo? O plano petista parecia quase perfeito. Ao inviabilizarem a Rede, os estrategistas do partido-aboletado-e-aferrado-ao-Poder, como nunca antes se viu na história deste país, pareciam ter dado um xeque-mate na candidata efetivamente mais ameaçadora ao seu projeto de perpetuação na presidência da República. Acreditavam ter deixado Marina entre a cruz e a espada: ou se filiaria a uma legenda de aluguel, para postular o cargo máximo da nação, o que a igualaria aos piores oportunistas, comprometendo consequentemente seu maior capital político, ou ela sacrificaria seus 20% de intenções de voto, permanecendo sem legenda, mas galgando o Olimpo das atitudes e valores nobilíssimos. Até mesmo os conselheiros de Marina entraram no “oito” desenhado pelos estrategistas do PT.

Marina Silva surpreendeu a todos, inclusive aos seus correligionários. Foi a única pessoa que conseguiu enxergar “fora do quadrado”, como dizem os americanos. Somente ela conseguiu vencer o dilema falacioso. Os estrategistas petistas, muito seguros de seu cálculo, literalmente maquiavélico, não conseguiram prever a radicalização da coerência. O discurso de Marina no dia da filiação ao PSB deixou isso claro como água. Pelo menos para mim. Se seria incoerente aderir a uma legenda de aluguel para postular a presidência, seria igualmente incoerente, para uma mulher pública com a sua história, fazer uma opção não-política. Resguardar-se no Olimpo do purismo de princípios – aposta das brilhantes mentes petistas – seria, na verdade, uma traição ao compromisso com a Cidade. Afinal de contas, é na Ágora que se posicionam os cidadãos, e é ali onde se devem dar os embates pela definição dos destinos da coletividade. Um ostracismo auto-imposto é apenas aparentemente honroso. Entre o pragmatismo cínico e o idealismo demagógico, Marina fez uma escolha efetiva, literal e radicalmente política. 

Como cada um tende a medir o mundo por sua própria régua, muita gente continuou achando que Marina, no fundo, não havia desistido de ser candidata a presidente. Enquanto uns apostaram durante meses numa “traição” de Eduardo Campos, que teria prometido a ela a cabeça de chapa, outros sustentavam que Marina esperava ser homologada pela força das pesquisas de intenção de voto, dando a volta no seu anfitrião. Outros ainda associavam tudo ao sentimento mesquinho da vingança, ou à simples ambição pelo poder. Sempre achei que qualquer dessas leituras era um ultraje à história dessa mulher (que eu admirava muitíssimo pela integridade e combatividade política, embora não conseguisse vê-la na presidência da República). Só não me deixavam mais indignada porque maior era a minha pena dessas pessoas, que assim raciocinavam por absoluta incapacidade moral. Nãos conseguiam compreender o gesto de Marina simplesmente por não terem em seus próprios repertórios, os valores que ardem no coração dessa professora acreana, e ditam suas ações. Mesma condição de que padeceram os estrategistas do PT. O tiro no pé resultou da impossibilidade de inclusão de certas variáveis éticas em seu cálculo. Agir em legítima defesa da esperança, para essas mentes brilhantes, é grego.

A candidatura de Eduardo à presidência foi confirmada e homologada com toda tranquilidade, e Marina desempenhou com a maior elegância o papel de uma vice-celebridade. Não me lembro de jamais ter percebido ou tido notícia concreta de que Marina estivesse se incomodando em emprestar seu prestígio para que o eleitor abrisse seus olhos e ouvidos, e se dispusesse a conhecer o político e o gestor excepcional que era Eduardo Campos. Marina assumiu seu papel na candidatura com todo o compromisso. Todos os dados de pesquisas internas apontavam uma possibilidade real de crescimento dessa candidatura. Mas, dessa vez, foi o imponderável que se interpôs na história e surpreendeu a todos da maneira mais trágica e cruel. De repente, Eduardo não existia mais. Ironicamente, Marina se viu solidamente na condição de candidata a presidência da República. A mesma condição que lhe fora negada pelas manobras baixas do partido aboletado no poder. 

Eu me perguntei -- e sei que muitas pessoas como eu – se Marina teria condições efetivas de governar um país tão complexo, onde a força inercial da burocracia e do ordenamento institucional é tremenda, e age para que o gestor não realize, para que as ações de governo, tão essenciais para melhorar a vida das pessoas, simplesmente não aconteçam. Eu me perguntei se Marina teria pulso, se teria jogo de cintura, se teria capacidade de articulação, se teria flexibilidade para enfrentar uma realidade “toda feita contra ela”.

A resposta se desenhou diante dos meus olhos, hoje, cristalina. Sim. Marina será uma grande presidente. Ela pode ser franzina, mas tem a envergadura moral que só os grandes líderes da história apresentam. A vida é cheia de mistérios. Poderia ser triste, mas foi uma grande alegria constatar que, inequivocamente, o discurso que Eduardo e Marina sempre defenderam, de que estavam juntos em uma aliança programática, não era conversa de candidato. Ao apresentar seu programa de governo para o Brasil, nesta tarde, Marina Silva evocou a memória dessa construção conjunta, deu testemunho dos esforços feitos por ambos para elaborarem um projeto consensual, um projeto que pude nos oferecer o mapa da mudança, do país que somos hoje, para a nação que desejamos ser amanhã.

Do dia 05 de outubro de 2013 ao dia 13 de agosto de 2014, Marina e Eduardo conviveram intensamente. É de se supor que tenham discutido muito, que tenham divergido bastante, mas hoje ficou evidente que ambos aprenderam muito nesse embate. Aprenderam e se transformaram. A Marina que eu acabo de escutar é uma mulher amadurecida e engrandecida, por uma intensa caminhada, e pela dor de uma grande tragédia. Hoje eu tenho certeza de que o compromisso de Marina Silva com o Brasil é maior que suas posições pessoais. Sei também que sua compreensão da realidade ganhou em complexidade, sutileza e amplitude. Tal como na Alquimia, o fogo que nos levou Eduardo Campos, nos devolveu uma líder robustecida, pronta para nos ensinar a pensar diferente, para nos mostrar que é possível fazer do jeito certo, e até, que existem, sim, o certo e o errado. Marina está pronta para ajudar o Brasil a se reencontrar. 

Espero que nós, brasileiros, tenhamos coragem para segui-la e apoiá-la, na dura jornada que teremos pela frente. Que nossa coragem seja maior que nosso comodismo. Que nós saibamos lutar por esse país com a mesma resistência da biorana. Que nos recusemos a deixar nosso país entregue nas mãos da quadrilha da ocasião. Os que se acostumaram a tratar o estado brasileiro como a farta geladeira de casa farão de tudo para desestabilizar o governo de Marina? Pois bem. Nós, cidadãos de bem, que queremos um país tão bom como ele pode e merece ser, somos bem mais numerosos. Somos milhões. Se perdermos essa batalha contra a corrupção, o patrimonialismo, o fisiologismo, a falta de caráter, a bandidagem de colarinho branco será culpa inteiramente nossa. Como nossa presidente, Marina só ficará refém das forças do mal, se nós assim o permitirmos. A probabilidade de Marina ser nossa próxima presidente é muito grande. Mas nossa participação nessa história não termina no dia da eleição. É ali que ela apenas começa.

Nenhum comentário:

AS MAIS ACESSADAS

Da onde estão acessando a Maria Preta