terça-feira, 2 de setembro de 2014

Morre arquiteto e deisgner Sergio Rodrigues

Arquiteto e designer de móveis estava em casa


RIO — Morreu na manhã desta segunda-feira, o designer de móveis Sergio Rodrigues, de 86 anos. Ele estava em casa, em Botafogo. Oficialmente, a causa da morte ainda não foi divulgada, mas Sergio lutava contra um câncer de pulmão há alguns anos e sua saúde já vinha debilitada.

Um dos principais nomes do design nacional de móveis, Sergio ganhou notoriedade internacional a partir de 1961 quando a poltrona “Mole”, uma de suas principais criações, e talvez o maior ícone do mobiliário nacional, ganhou o Concurso Internacional do Móvel, na Itália. Sergio havia começado a trabalhar como arquiteto dez anos antes, mas desde 1954 se dedicava ao design de mobiliário.

Considerado por muitos o criador do móvel moderno brasileiro, em 1955, Sergio abriu a Oca, um misto de estúdio e galeria de arte em Ipanema onde vendia suas peças e projetos de arquitetura de interiores. Naquela época, seus móveis robustos usavam madeiras nativas como o jacarandá, criando um design tipicamente brasileiro. Nos últimos anos, as peças voltaram a ser produzidas com madeira de reflorestamento.

Enquanto a arquitetura modernista se destacava no país, Sergio se dedicou aos projetos de interiores criando móveis sob encomenda para alguns dos principais nomes do modernismo nacional, como Oscar Niemeyer e Lucio Costa. Os dois arquitetos, aliás, foram homenageados com poltronas criadas por Sergio, que tinha o hábito de dar nomes e apelidos de amigos e familiares a suas criações.

A presidente Dilma Roussef, que convive diariamente com peças desenhadas por Sergio no Palácio do Planalto, divulgou no final da tarde desta segunda uma nota de pesar pela morte de Sergio.

— Sergio Rodrigues elevou o design do nosso mobiliário aos mais altos padrões de criatividade e qualidade internacionais, sem perder um profundo toque de brasilidade. Sua morte entristece a todos. Meus sentimentos a sua família, amigos e admiradores.

Autor de um livro com desenhos inéditos de Sergio, o arquiteto Ivan Rezende se emocionou ao saber da morte do amigo:

— Estive no sábado passado visitando a Vera Beatriz e Sergio. Impressionante que depois de todos estes anos de amizade com ele, só agora consegui materializar o Sergio em uma palavra: generosidade. Mesmo na mais profunda adversidade, foi ele quem se doou a nós. Foi ele quem teve a palavra mais amiga num momento em que corríamos atrás do que dizer. Na vida foi generoso na sua produção, foi generoso em agregar amigos e nos maravilhar com sua alma de cronista. Há algum tempo, a Adelia Borges me pediu uma definição do Sergio Rodrigues para incluir em um de seus livros. Escrevi: “Quando o tupinambá foi a mata, viu jacarandá. Se tivesse ido a Ipanema, teria visto Sergio Rodrigues. Sergio é madeira de lei, nobre metamorfose. É a tradução do Rio de Janeiro que a gente quer. Inspiração para aqueles que buscam a excelência”. Hoje, eu diria, em sua metamorfose, Sergio Rodrigues é pura luz.

Sérgio deixa viúva Vera Beatriz, com quem estava casado desde 1973. Os dois já tinham namorado na adolescência e se reencontraram 30 anos depois. O corpo será cremado nesta quarta-feira, no Memorial do Carmo, no Caju.

ARQUITETOS LAMENTAM A MORTE DO DESIGNER

— Sergio Rodrigues, lançando mão de uma estética moderna e utilizando materiais simples como couro e madeira, deu uma das mais geniais e importantes contribuições ao mobiliário brasileiro. Sua Mole foi pensada para o homem, para o seu conforto. É praticamente um abraço em quem senta. Existem inúmeras belas cadeiras criadas por arquitetos, mas a Mole é única, porque além de bela, é afetuosa — diz o arquiteto e urbanista Paulo Casé.

— Numa época que eram poucos os que acreditavam numa arquitetura e design modernos, como o Lucio (Costa) ou Oscar (Niemeyer), ele já pensava em inovar. Ele foi um grande visionário, sempre acreditou no que fazia sem se importar com modismos. Querido mestre, você vai deixar muitas saudades e tenho certeza que lá em cima vai ficar mais alegre e bonito — disse Pedro Paranaguá.

— A história do mobiliário nacional perde seu mais importante personagem, e o país perde um dos grandes pilares de sua cultura. Sergio foi a síntese do ser humano e do profissional que o país merece. Quem o conheceu de perto sabe o quanto a beleza e a riqueza humana que ele tinha foi tão bem retratada em sua obra — afirma o designer Zanini de Zanine, filho do arquiteto José Zanine Caldas, contemporâneo de Sergio.

— Comecei a projetar estimulada por ele. Lembro de sua gentileza, educação, e do valor que sempre teve. Para mim, ele e o (Joaquim) Tenreiro foram os dois suprassumos do design brasileiro, e eu, seguindo o exemplo deles, quis fazer cadeiras também. Dele, vou lembrar dos papos longos, do tempo da faculdade — lembra Aída Boal, que esteve pela última vez com Sergio para uma materia feita para o caderno Ela, do GLOBO.

— Sergio tinha um traço maravilhoso e com ele fez uma grande mudança no design brasileiro, usando nossas madeira e incorporando, através da Oca, esse trabalho em interiores. Era um grande praça — afirma Chicô Gouvêa.

— Sergio Rodrigues é o maior nome do design nacional. Foi o pioneiro em desenvolver uma linguagem tipicamente brasileira, que incorporasse o gingado e o tempero da nossa raça às suas peças. Só me revolta o fato de nosso país demorar tanto tempo pra olhar pro próprio umbigo e aprender a valorizar os nossos próprios gênios. Se tivesse nascido em outro país, junto ao seu legado, teria feito fortuna — acredita Miguel Pinto Guimarães.

— O Sergio é o maior designer brasileiro. Ele foi um guerreiro. Quando ele começou, o design do Brasil não era tão valorizado quanto é hoje. O Sergio abriu caminho para todos os outros criadores. Ele pensava o móvel com conforto e funcionalidade, além de ter trabalhado com nossas madeiras — lembra Patricia Quentel, organizadora do Casa Cor Rio.

— O Sergio era sempre a mesma pessoa: humilde. Nunca se colocou numa posição superior, mesmo com todo o sucesso. Tinha uma conversa muito boa. A gente elogiava seu trabalho e ele dizia que não era bem assim... Sergio Rodrigues foi o percursor do design brasileiro, que nos últimos dez anos passou a ter uma maior aceitação. Na Feira de Milão, por exemplo, era muito reconhecido, sendo sempre homenageado — diz Patricia Mayer, também do Casa Cor Rio.


Fonte: O Globo

Nenhum comentário:

AS MAIS ACESSADAS

Da onde estão acessando a Maria Preta