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| Foto : autoria deconhecida |
Para bom entendedor, meia palavra basta! Em poucas palavras pode-se perceber o conteúdo racista e xenófobo veiculado nessa expressão, em que equipara africanos a animais. E mais, demonstra total ignorância com relação à forma de ingresso desses estudantes nas Universidades brasileiras, que não se dá por meio de cotas raciais, mas sim através do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), que possui seus próprios mecanismos de seleção. Mas essa não é a primeira e nem a última manifestação desse tipo. Em 2007, na Universidade de Brasília, a intolerância chegou a tal ponto de alunos africanos, mais especificamente de Guiné Bissau, terem seus apartamentos incendiados e os extintores de incêndio de dois andares esvaziados.
O que se nota a partir
disso tudo é que, apesar de serem firmados acordos internacionais no que diz
respeito ao convênio entre universidades brasileiras com países africanos, e do
artigo constitucional que torna o racismo “crime inafiançável e imprescritível, sujeito à
pena de reclusão”, a intolerância têm deitado raízes profundas na sociedade
brasileira. Muitas vezes atribui-se à falta de conhecimento e a falta de
escolaridade, a veiculação de mensagens com teor racista. Mas, partindo dos
fatos acima, como se explica isso, já que as Universidades públicas são
frequentadas por membros da dita elite intelectual esclarecida? É claro que os
problemas são de ordem histórica, pois por muito tempo o Brasil passou (ou será
que ainda passa?) a imagem de um país em que as raças conviviam
harmoniosamente, o que teria despertado curiosidade por parte de organismos
como UNESCO em 1950, que teria encomendando uma pesquisa para descobrir a
“receita” de sucesso de Brasil. “Milagrosamente” descobriu-se, através dessa
pesquisa, que nosso país não só era isento de preconceito, mas que ainda por
cima possuíamos uma forma peculiar de manifestá-lo, aquilo que ficou conhecido
como “racismo à brasileira”, ou pelo “preconceito de não ter preconceito”. Quer
queira, quer não, não lemos no cotidiano midiático condutas discriminatórias
contra indivíduos ingleses, franceses, norte-americanos. O trato social para
com essas nacionalidades é nitidamente diferente. Não estamos defendendo
qualquer forma de desrespeito para com o outro. Mas podemos pensar que as ditas
teorias raciais do século XIX ainda parecem cada vez presentes no imaginário
social, teorias essas que entendiam que países europeus encontram-se no topo da
civilização e os demais no início da primitividade (daí a associação com
animais?).
| Jornalista com a camisa contra o racismo em New York |
Frente a isso é que
nossa comunicação remete a um dos célebres filósofos do contrato social, Thomas
Hobbes. Tomando de empréstimo uma de suas frases mais conhecidas, no que diz
respeito a “lei e a espada”, fazemos isso a fim de ilustrar a realidade
vivenciada pelo Brasil. Segundo esse autor, visto como teórico do Estado
Liberal, a passagem do estado de natureza à sociedade civil se daria por
meio do contrato social. Os
indivíduos renunciariam as suas parcelas de liberdade natural, transferindo-a a
um terceiro, no caso, um soberano, um poder capaz de criar e aplicar as leis. Isso porque
leis não passariam de palavras ao vento, caso não houvesse uma garantia de
punição severa para aqueles que não as cumprissem. A importância do cumprimento
da lei se daria no sentido de evitar-se uma situação que ele denomina de
"Estado de natureza", que seria uma forma de vida em que, por não
existir um poder maior que pautaria os comportamentos dos grupos, cada pessoa
ou grupo de uma sociedade agiria para defender-se dos outros. Seria a
configuração da guerra, do todos contra todos, a instalação do completo caos,
isso, tendo como objetivo, pura e simplesmente a manutenção de sua
sobrevivência. Porém, como dito anteriormente, caberia ao Estado Liberal
resguardar os ditos “direitos naturais”, que se referem, grosso modo, ao
direito a vida, a liberdade, a sobrevivência do corpo. Hoje denominaríamos de
liberdades civis, garantida pela Constituição Federal de 1988 em seu artigo 5.
Mesmo que os casos de
manifestações violentas de racismo sejam cada vez mais denunciados pela mídia e
pelos movimentos negros, a impunidade ainda é imperante. O Estado continua a
permanecer
indiferente frente aos direitos tidos como básicos e fundamentais, os civis, da
população negra, e se constituem ainda os mais frágeis até a presente data, não
guardando o mínimo do direito de sobrevivência de
negros, sejam brasileiros ou não. Dessa forma, urge que reflitamos sobre a necessidade
de combatermos a impunidade e de exigirmos ações mais concretas nesse sentido,
seja através da sensibilização crescente população, seja através da aplicação
da “espada”.
No que se refere à
universidade, pode-se dizer que ela também tem sua parcela de responsabilidade
para com isso, pois insiste em protelar a tomada de providencias frente a um
problema que tem se mostrado crônico. O despontar de atitudes tão repugnantes e
lamentáveis como a desse episódio na Faculdade de Ciências e Letras trazem à
tona o seguinte lembrete: ainda não podemos supor que todos aqueles que
pertencem a uma dada sociedade possuem condições para agir de forma a observar
o mínimo que se espera de uma sociedade que em todos os momentos tenta se
firmar como moderna, ou seja, o respeito na sua relação com o outro. Em suma,
podemos dizer que padecemos da falta de princípios éticos e até mesmo de uma educação
cívica que está para além dos muros da Universidade, como se pôde verificar nos
atos acimas citados. Trata-se também daquilo que Florestan Fernandes sempre
discorreu: da persistência do passado no presente. No caso ainda parece imperar
formas arcaicas de uma mentalidade que não se mostra compatível com um país que
roga a plenos pulmões a sua modernidade. Enfim, podemos mudar toda uma
estrutura política, econômica e até social em menos de um século, mas as
estruturas cognitivas se não forem bem cuidados, trabalhadas, teimam em
persistir. Enquanto isso não se processa na sociedade brasileira, o combate ao
racismo irá exigir medidas sistemáticas, concretas, uma vigilância constante,
no sentido de o que o mínimo de ruído deve ser combatido, de forma a não ferir
um direito personalíssimo tal qual a dignidade humana.Ariella S. Araujo- Mestranda em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista - UNESP/Araraquara
Membro do Grupo de Trabalho do Núcleo Negro da Unesp para pesquisa e extensão (NUPE) - UNESP/Araraquara
Pesquisadora do Centro de Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra (CLADIN) e do Laboratório de Estudos Africanos, Afrobrasileiros e da Diversidade (LEAD) - UNESP/Araraquara
Membro do Grupo de Estudos sobre Escravidão e Relações Étnico-Raciais (ERA) - UNESP/Araraquara
Enviado por Ariella

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